Em meados de 2012 eu já estava trabalhando a mais de um ano numa rádio AM comercial e popular. Já havia dado tempo de sacar o grande público que ainda acompanhava as ondas médias e a influência que os programas e apresentadores da emissora ainda tinham em parte da população da cidade. Também já havia dado tempo de a audiência me conhecer. Sabendo disso, resolvi tentar aproveitar o espaço em que estava e minha proximidade com os locutores para meu benefício…
Mas calma, não foi nada ilícito. Acontece que naquele ano eu havia comprado meu primeiro carro, um VW Sedan 1300L azul Caiçara 1978, popularmente conhecido como Fusca. Estava o reformando e tentando deixá-lo tal qual ele veio ao mundo (apesar da grana curta), mas havia me deparado com uma barreira cara para alcançar meu objetivo: O preço cobrado pelo rádio original do veículo. Onde quer que eu olhasse, estava tudo fora do meu orçamento.
Resolvi apelar para o público. Falei com os comunicadores, eles deixaram que eu explicasse no ar a epopéia de minha restauração e pedisse que, caso alguém tivesse guardado um desses desejados aparelhos em casa e quisesse negociar, ligasse para a emissora e falasse comigo.
Passada uma semana do anúncio, comigo já desacreditado, veio o telefonema de um ouvinte, dizendo que achava ter o que eu queria e pedindo para ir visitá-lo para averiguar. No mesmo dia me desloquei para o outro lado da cidade e constatei que aquele era exatamente o exemplar que eu estava buscando.
Segundo o ouvinte, um senhor com certa idade, o rádio estava guardado fazia anos pois, quando ele havia comprado seu fusca (zero, diga-se de passagem), tinha resolvido modernizá-lo e colocar um rádio com toca fitas. Feita a troca, o rádio antigo ficou no fundo de uma caixa, esquecido, até que ele ouvisse meu pedido no rádio.
Quando dei o primeiro passo para começar a negociar o valor, fui surpreendido com o ouvinte me dizendo que para ele aquilo não tinha valor nem utilidade e que estava me dando. Expliquei que era um item cobiçado se ofertado ao público certo, mas ele não deu bola e disse para que eu considerasse como um presente de natal antecipado.
Se este senhor não tentou se aproveitar de mim, a esposa dele foi mais esperta. Ouvindo que tinha um valor, ela colocou uma condição para que eu ficasse com aparelho. Pediu para que, quando começasse o Natal, eu arrumasse para ela uma cópia em CD dos Terno de Reis que tocavam tradicionalmente na época de natal no programa do Aymoré do Rosário. Claro que concordei e, chegando o final de ano, cumpri com minha promessa.
Talvez aqui valha uma explicação breve. Os Terno de Reis são uma tradição natalina antiga, com canções feitas por pequenos grupos de músicos amadores locais com referência a história bíblica dos Três Reis Magos. Eu só conheci isso trabalhando com estes comunicadores mais antigos e sempre achei muito chatas e ruins essas inserções musicais na programação. Mas pelo jeito, tem gosto pra tudo.




















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